Cala a Boooocaaa!!!!
Em janeiro de 2011 eu morava no alojamento de um aeroclube, e de madrugada eu trabalhava numa churrascaria. Minhas folgas eram nas noites de terça-feira. No mesmo quarto do alojamento, morava um cara do Amazonas (Nery), que hoje considero meu irmão. Também morava mais um colega que era do interior do Paraná, o Clayton, que estava ali há uma semana. (Leia: Como facilitar o pagamento de horas de voo)
Ao lado do alojamento funcionava a lanchonete do aeroclube. Havia nesta lanchonete uma área que ficava praticamente exposta aos quartos, então, tudo o que as pessoas nesta área conversavam e faziam a gente podia ouvir e ver.
Numa noite de terça-feira eu estava de folga, estávamos o Nery e eu no quarto. Eu ficava tentando estudar, o Nery assistia TV, mas era impossível se concentrar ou ouvir a TV. Alguém na lanchonete ria e falava alto demais, fazia muito barulho. Então, desisti de estudar e fui assistir TV, mas não dava pra ouvir porque o cara era muito barulhento. Aquilo foi rolando e já era mais de 22:30. Chegou um ponto que aquilo irritou tanto que eu gritei: CALA A BOOOCAAAAA! Eu acreditava que quem estava fazendo aquela zona era um aluno, um professor, alguém do alojamento. Mas era na lanchonete e era um estranho. Que péssima hora pra se dizer o que se pensa. O cara gritou de lá: “QUE É MEU IRMÃO? TÁ ME MANDANDO CALÁ A BOCA? FICA ESPERTO AÍ?”…. Fui pra fechar a porta, nisso o Clayton vinha chegando, esperei ele entrar e fechei, mas não olhei quem era que tava berrando lá.
Como eu não vi o cara e ele não me viu, achei que tivesse ficado tudo bem, como quando dois amigos se xingam e fazem ameaças de brincadeira, afinal, eu achava que ele fosse um conhecido e que não fosse levar a sério o CALA A BOOOCAAA.
Depois que o Clayton chegou, ele ligou o notebook e colocou um filme. Ficamos lá assistindo bem tranquilos aquele filme de magia negra, estupro, pactos e num sei o que mais, quando o Nery disse: “- Cara! Desliga tudo, tranca a porta que o cara tá vindo aqui”! Falei “-Ahh, capaz! O cara deve tá brincando.” O Nery saiu trancando a porta desligou as luzes, fechou o notebook do Clayton e ficamos em silêncio.. Aí comecei a ouvir o cara fazendo perguntas nos outros quartos: “-Você que me mandou calar a boca?” Respondiam : “- Eu não, num sei quem foi, num ouvi nada”. Então ele chegou no último quarto, o nosso. Na silhueta no vidro da porta via que o cara era um armário, um 2×2. Começou a xingar na porta e forçar para tentar entrar. Em seguida catei um caibro da escada do beliche, o Nery catou uma garrafa e o Clayton pegou outro caibro. Ficamos esperando, coração na boca. Não dava pra saber se era um louco, se era um bêbado, se era bandido, se era policial, se estava armado ou não. Ficamos a postos, o Nery na frente da porta, eu e o Clayton do lado da porta, na parede. Se o cara entrasse ia levar uma chuva de porrada sem nem saber de onde vinha. E o louco foi chutando, batendo, xingando. Cada chute que ele dava na porta de aço, ela abria uns 20 cm e voltava. Até que ele desistiu. Voltou pra lanchonete e ficou de lá xingando e ameaçando vir armado atirar na gente. A coisa foi indo e a gente não podia nem ligar a luz. O tempo foi passando e já era umas 23:40 quando eu decidi que iria lá falar com ele. Abri a porta e fui, sai no meio da chuva que caia torrencialmente, corri e entrei pelos fundos da lanchonete. Fui no balcão e percebi que todos os caras do alojamento estavam lá dentro… ué? Bando de sacana… ninguém pra ficar do nosso lado? Todo mundo aqui ouvindo o maluco e a gente lá escondido!!! Resolvi ir falar com o dono da lanchonete. Perguntei: “- Quem é esse cara? Como que ele vai lá tentar invadir nosso quarto? De onde ele veio?” Em resposta ele me disse: “- Psiuu!! Fica quieto que esse cara é perigoso, ele tá armado!”. Olhei em volta, os caras do alojamento estavam em fila, como se estivem em posição de sentido diante de um superior, que neste caso era o 2×2. Pensei – Vixi, se eu não for falar com ele ninguém aqui dorme – , mas por sorte havia um professor do aeroclube, muito conhecido e ex-militar, que conhecia o Doidão e estava conversando com ele. Aproveitei a situação, fui lá e parei na frente dele.

Ele disse: “- Quem me mandou calar a boca?”. Respondi:” Foi eu!”. –Você!!!!????. ” – Sim , na verdade não foi pro SENHOR. A gente tava no quarto assistindo o Big Brother, mas eu não agüentava mais ouvir o Pedro Bial, e gritei CALA A BOOOOCAAAA!, só que foi pra TV e o SENHOR confundiu. No alojamento a gente toca violão até de madrugada, ouve música e tudo mais, xinga o cara lá do primeiro quarto. Uma pena ter pensado que fosse pro SENHOR.”

Ele com um sorriso, sacando minha desculpa esfarrapada, me deu dois tapinhas nas costa e disse: “- Ahh! ok , então tá tudo resolvido.” Na verdade ele queria era me trucidar, os olhos dele faiscavam, só que com a presença do professor ao lado, ele não poderia fazer nada.
Voltei pro quarto, ficamos um pouco mais tranqüilos e já imaginando que ele voltaria no meio da noite pra dar uns “pipoco” pra dentro do nosso quarto. Dormimos e no dia seguinte estávamos vivos e não havia marcas de bala em lugar algum. Fui no aeroclube dar uma volta, tava lá vendo uns aviões decolando e pousando quando escutei: “-CALA A BOCAAA!!” Era um colega tirando um sarrinho. Logo outro gritou o mesmo, a história se espalhou no aeroclube e durante alguns dias aquilo virou bordão. Pra tudo a resposta era, CALA A BOOOOCA!!!
Na semana seguinte não tive folga e fui trabalhar na noite de terça-feira. Quando cheguei de manhã no alojamento e abri a porta o Clayton disse: “-Cara! Perdeu a festa ontem! Teve tiros e tudo mais! “ Então ele me explicou que o doidão voltou na lanchonete e ficou de lá um bom tempo ameaçando. Depois foi na varanda da lanchonete, que ficava uns 3 mts à frente da porta do nosso quarto, separado apenas por uma mureta de tijolos vazados, sacou a pistola, (disseram que era um trabuco prateado de uns 40 cms de cano, eu não vi!) apontou para a porta do alojamento, o Nery que tava espiando pela ventarola se tremeu, e o cara efetuou dois disparos, mas foi pra cima, num ângulo de uns 30 graus acima da porta. Dizem que foi o mesmo que soltar uma bombinha no meio de um monte de gatos… Só dava peão correndo, saindo dos quartos na chuva, teve gente que só voltou no outro dia. O Clayton se mudou e foi para um apartamento.

Então naquele dia que eu cheguei pela manhã do trabalho, começaram a buscar o cara dos disparos, e ele tinha outros dois amigos com ele, todos eram membros de uma instituição Federal, e eram pilotos de helicóptero. Depois disso houve processo administrativo, disseram que os caras foram suspensos e punidos. Particularmente, eu não sei mesmo o que houve, não tive acesso às informações. Entretanto, a gente costumava almoçar sempre no mesmo lugar. E qual não foi minha surpresa em dar de cara com o Doidão almoçando lá também. Fui ver que o cara trabalhava no aeroporto e almoçava no mesmo lugar que a gente freqüentava e era alguém conhecido naquele local.
O tempo passou nada aconteceu, o Clayton preferiu mesmo o apartamento, eu me mudei do aeroclube alguns meses depois e voltei pra casa. De vez em quando converso com o Nery através do MSN e por telefone. A gente costuma comentar como é difícil se tornar piloto aqui no Brasil, principalmente por algumas oportunidades que a gente gostaria de ter e nunca tem. Minha mãe, vendo a luta que é para conseguir a formação de piloto, costuma dizer que as portas vão se abrir . Eu prefiro não esperar elas abrirem e digo pro Nery: ”- Cara! Mais umas “bicuda” e as portas vão abrir, a gente só tem que continuar chutando.”

Se aquele doidão soubesse dessa frase, teria entrado no quarto. Mais umas “bicuda” e ele derrubava a porta.
Bom, ele não entrou e não conseguiu atingir o objetivo. Mas eu continuo chutando, o Nery também. E você amigo leitor? Tá difícil de ver as portas se abrindo? Mete o pé que a porta abre, só mais umas “bicuda” e ela abre. Vai por mim, senti de perto essa emoção …..




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