AVIAÇÃO COM INTELIGÊNCIA E BOM HUMOR.

Aquele Cavalo de Pau na Pista………..

Recebi este relato de um amigo que se tornou Piloto Privado no ano de 2011.
Este post é uma história real sobre um vôo extremamente desagradável na fase de intrução de PP. Para não ofender pessoas e não denegrir a imagem da instituição, os nomes e os lugares foram omitidos.
Era um sábado, dia 28 de agosto de 2010, véspera do meu aniversário. Eu tinha horário marcado na escala para voar no meio da tarde. Naquele dia quando levantei pela manhã, enquanto fazia o café, uma imaginação se repetia na minha cabeça. Era algo que eu não conseguia desviar ou deixar de pensar. Na minha cabeça vinha o seguinte pensamento e imagem: Eu me imaginava, dentro do AB-115, com o instrutor e no meio da corrida de decolagem a gente perdia a reta e ia parar fora da pista capotando o avião e iniciando um incêndio a bordo. Eu imaginava e pensava que se isso acontecesse, como eu faria para que o ocorrido fosse menos grave e sem consequências maiores? Simplesmente eu tentava evitar o pensamento e não pensar em nada de nada sobre isso. Então consegui esquecer a “viagem” e fui trabalhar. Após o expediente fui direto para o aeroporto. Cheguei no aeroclube, conheci meu instrutor que era novo na instituição, conversamos um pouco para nos entrosarmos melhor. Preenchi a notificação de vôo, as fichas de controle da instituição e fui fazer o check pré-vôo no Boerinho Ab-115. Deixei o avião prontinho, óleo completado, combustível abastecido, tudo pronto e docolamos para a área de instrução.
Na subida ele foi me explicando alguns pequenos erros de pilotagem que deveriam ser corrigidos, passamos para a coordenação de primeiro tipo, em seguida subimos para treinar alguns estóis, depois treinamos pane e fomos fazer o “S” sobre estradas. Fiz uma curva pra esquerda nivelei, passei a estrada, fiz uma curva pra direita, e assim foi, me lembro que bem no meio da terceira curva pra esquerda avistei uma aeronave em rota de colisão conosco, a menos de 1 minuto de distância e que estava uns 200’ ft acima. Informei ao instrutor e imediatamente iniciei uma curva para direita, afinal estávamos nos aproximando de frente, e segui o regulamento. No meio da curva para a direita para evitar colisão, o instrutor tomou os comandos e fez uma curva para a esquerda, alegando que não deveríamos sair daquela área onde estávamos, pois estávamos voando baixo em torno de 700’ ft. Naquela curva para esquerda, ele começou a se aproximar da outra aeronave que estava fazendo curva a direita evitando colisão. Então, ele foi apertando a curva cada vez mais pra não se chocar com o outro avião e passou a menos de 100m de distância e uns 100’ ft abaixo. Muitos podem dizer: “ahh passou longe.” Mas não foi muito longe não, e serviu para mostrar o despreparo de um instrutor. Beleza, tráfego evitado, colisão evitada, agora deveríamos nos afastar deles para não correr riscos novamente. Olhamos para trás e vimos o outro avião às 8hs de nossa posição e fiquei mais calmo. Mas era muito cedo para ficar calmo. Quando olhei para baixo e ao redor, percebi que estávamos sobre uma pedreira (onde explodem dinamite e os estilhaços podem alcançar um avião a 700’ ft, que era a altura em que estávamos) e sabia disso porque outros instrutores já haviam me advertido sobre aquela área e ela constava na WAC e na ARC da região. Pedi então para cancelar aquele vôo e retornar, afinal havia perdido a confiança no instrutor. Retornamos, e na entrada do circuito de tráfego ele me questionou se eu sabia pousar, respondi que sim, mas que em virtude de estar uns 20 dias sem voar entregaria o pouso a ele. Assim, ele disse que o pouso seria todo dele e que eu deveria apenas acompanhar. Fiz a perna do vento, girei base e entreguei o avião flapeado e na velocidade certa para ele. Ele girou de base pra final e manteve o avião nivelado!!!!! O avião não descia, e ele não reduzia a RPM nem compensava para descer. Aí em determinado ponto ele disse: “-Estamos alto né?” Então, ele iniciou a descida, fez a rampa, e, mesmo todo flapeado, e com razão de descida de 1.000´ft/min não daria para tocar antes da metade da pista. Fiquei pensando se ele não faria uma glissada, ou informaria arremetida. Mas que nada, ele deu uma picada, depois arredondou e flutuou, flutuou , flutuou rente a pista e tocou nos 3 pontos. Mas neste momento a metade da pista já tinha passado, o avião ainda tinha energia e saiu do chão de novo. Soltei os comandos, e fiquei aguardando o desfecho daquela sequência enorme de erros. Ele corrigiu e tocou certo. Em seguida, adivinha o que ele fez? Disse assim: “– cola o manche”…..fui pego de surpresa, o pouso não era meu, eu estava com as mãos e os pés fora dos comandos, tentei agir rápido, mas não teve jeito. O boerinho guinou à direita para uma taxiway. O instrutor tentando segurar e eu tbm, virou uma luta de alguns segundos que pareciam intermináveis, aí vi o mundo girando . O Boerinho deu um cavalo de pau, girou 180 graus e saiu deslizando de lado, atropelando os balizamentos da pista, esfregando o profundor e a ponta da asa esquerda no chão.Quando parou, o motor ainda girava, havia um cheiro muito forte de combustível e a Torre indagando se estávamos bem. Olhei ao redor e vi combustível escorrendo pelas asas. Ouvia a Torre dizendo que era pra ficarmos no local pois a INFRAERO havia sido acionada para socorro, e ao mesmo tempo ouvia meu instrutor xingando e questionando o fato de eu não ter colado o manche. Em seguida ele começou a acelerar para sair dali e voltar para taxiway, eu tentava cortar o motor na mistura e também a parte elétrica por causa do cheiro de combustível e ele dava tapas na minha mão para eu não tocar nos interruptores e manetes. Depois de colocar o motor a pleno, desobedecendo as ordens da torre, o avião subiu na taxiway e voltamos para o pátio de estacionamento escoltados pelos carros e caminhões de socorro da INFRAERO. Descemos do avião e contamos alguns fatos aos socorristas para relatório posterior. Depois disso, tudo o que eu ouvi do meu instrutor foi: -”Acho que seria melhor você ir para casa e descansar.” Ninguém do Aeroclube perguntou se eu estava bem, se precisava de alguma coisa, ninguém perguntou o que tinha acontecido. Na segunda-feira me ligaram pedindo que eu fizesse um relatório para contar o que houve naquele sábado. Fiz o relatório e enviei via fax. Logo depois me liga meu instrutor daquele dia, todo irritado dizendo:”- Que relatório é este? Você quer me ferrar? Você não pode contar a verdade do que houve, vou perder meu emprego e a ANAC vai cortar sua bolsa e seu CCF! Vou te mandar o meu relatório e você faz mais ou menos igual e manda por fax pra substituir aquele que mandou antes!!!!”…. Concordei. Recebi o relatório dele e quase tive um acesso de fúria. O relatório dele dizia que eu havia feito o pouso errado, o avião voou de novo, ele corrigiu me devolveu os comandos e eu perdi o controle do avião no solo…..Ou seja, o culpado era eu!!! EU? EUUU!!!??? Como assim!!!???.
Foi um chute no saco!!!! Aquilo foi a maior prova de que eu estava errado em meus conceitos sobre aquela instituição. Fiz um relatório igual ao dele , mandei por fax e o assunto acabou por aí.
Nos dias seguintes quando encontrava com ele , não havia papo, ele desconversava. A diretoria do aeroclube fez de conta que nada havia acontecido. Foi assim por umas duas semanas. Um dia passei na secretaria do aeroclube e o atendente perguntou como eu estava. Respondi que eu estava bem, apesar de não voar há duas semanas depois do incidente. A frase dele em resposta foi: “- É, depois daquela sua barbeiragem que nos custou caro você precisava descansar a cabeça pra não fazer besteira de novo!!!!! Só não desisti da instrução de PP naquele aeroclube porque eu era bolsista, e segundo o contrato, se eu desistisse teria que reembolsar a União pelas horas que eu havia voado.
Engoli a injustiça como se estivesse engolindo um gato arisco. Continuei voando com eles, chequei o PP e voltei naquele aeroclube apenas para ver alguns amigos.
No fim das contas, apesar dos pesares deste vôo, aprendi muito… foi uma grande lição em termos de confiança, de tomada de decisões, de consciência situacional e de postura diante dos problemas. Afinal se isso acontecesse hoje, eu reagiria muito diferente. Este incidente poderia ter se tornado um grave acidente. Assim, posso dizer seguramente que muitas vezes as dificuldades podem nos levar a desistência de um sonho ou de um objetivo e eu quase desisti. Entretanto, deveria ter batido de frente com o aeroclube, deveria ter levado esta situação até os limites das decisões que seriam tomadas pela ANAC. Tenho certeza que eu seria defendido pela Agência Nacional de Aviação Civil e em paralelo algumas mudanças seriam exigidas no aeroclube na prática da instrução de vôo visando o aumento da segurança.
Então, posso dizer a você que pretende iniciar a instrução de vôo ou que já é aluno piloto, que escolha os instrutores que são mais elogiados por outros alunos. Escolha instrutores experientes. Dê preferência aos aeroclubes que possuem um bom histórico na formação de pilotos. E acima de tudo, tenha em mente que situações de risco devem ser evitadas ao máximo, e caso você se encontre em uma situação de risco, tome atitudes que estão prescritas nos regulamentos e nos manuais de vôo. Uma simples glissada ou arremetida poderia ter nos livrado daquele incidente. E claro, ter postura diante das situações, afinal, eu percebia em tempo real os erros e não relatava ao instrutor. O certo seria enfatizar de forma clara os erros e sugerir as correções necessárias antes que a coisa se tornasse pior. Atitudes assim são previstas e ensinadas nos cursos de CRM, mas a minha pouca experiência não me permitiu agir de forma melhor.
Bom pra finalizar, espero que o relato acima sirva de exemplo para muitos, do que fazer e do que não fazer em instrução. Espero estar colaborando com muitas pessoas ajudando a não repetir os mesmos erros.
Bom é isso, hehehhe… grande abraço a todos e bons vôos!!!!!

4 Respostas

  1. carlos eduardo

    caramba comando….. me diz o nome desse cara e o aeroclube q eu jamais vo botar os pés

    11/02/2012 às 13:11

  2. Lieberti

    Caraca que situação hein, um erro levou a outro, que postura essa ai do instrutor, lamentável.

    26/01/2012 às 19:59

    • Lamentável mesmo… e é uma pena saber que existem outros assim….

      26/01/2012 às 20:48

  3. Felipe Lopes

    Velho muito bom !!!

    26/01/2012 às 18:49

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